Parir e reencontrar-se com você mesma
- simonecortez
- 21 de out. de 2014
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de out. de 2024

Parto Alexandre – arquivo pessoal
Estava pensando o que escrever para inaugurar o novo blog (o antigo serbebe vai ficar lá para consultas). Ensaiei vários textos. Escrevi, apaguei… Até que uma bela noite, estava conversando com a Tania sobre o meu parto e comecei a contar como tinha sido, quais os sentimentos e sensações que ficaram após dezoito meses de parida. Ela me sugeriu escrever sobre o que eu tinha dito a ela. E assim nasceu o primeiro post deste novo espaço! Foi!
Tive meu filho em casa. Um parto domiciliar planejado, sonhado e realizado. Antes mesmo de engravidar eu já sabia que o Alexandre chegaria em casa, cercado de amor e respeito, com os sons e cheiros da casa dele. Já tinha escolhido a equipe e só faltava plantar a semente e ela vingar, para ser colhida na hora certa. Quando quisesse e estivesse pronta. E foi assim que aconteceu. Eu só não contava que teria um parto rápido e tsunamico! Fiquei com a bolsa rota durante 44 horas e nada das contrações. Estava ficando com medo de ter que ir para o hospital induzir. Não queria parir no hospital. Sempre tive certeza que ele nasceria em casa, que eu daria conta e que tudo iria correr bem. Estava tranquila, mas as horas foram passando e a margem de segurança estava chegando ao fim. Até que de uma hora pra outra, sim, de uma hora pra outra! Sem pródromos, sem contrações doloridinhas, pra ir acostumando, ele resolveu chegar chegando! E veio que veio. Em duas horas e meia ele estava nos meus braços mamando. E eu? Eu estava nocauteada. Em choque. Não acreditava que meu primeiro parto tinha sido tão rápido e tão intenso. Justamente por ter sido muito rápido. Caramba! E aquela história do primeiro parto ser mais longo, das contrações virem, crescerem, passarem e termos um tempo entre elas para irmos acostumando? Comigo não foi assim. E isso me assustou muito. De verdade. Mas passado o primeiro susto pelo tamanho da dor, pela velocidade da dilatação, eu me voltei para dentro, encarei meus medos, olhei no olho do pânico e disse: vamos la! E fui! Me joguei! Com dor, mas não mais com medo. Ele, o medo, eu coloquei no lugar dele, no tamanho dele. E fui. Passada as dores da dilatação, veio o desafio do expulsivo. Novamente o medo, dessa vez sem dor. Mas o medo era menor, era o medo do novo, e não mais o medo de não aguentar, de pedir para parar, de arregar. Era o medo do que viria pela frente. Pari. Meu filho amado veio para os meus braços e continua até hoje. E eu? Eu fiquei lá, naquele dia. Quem veio, quem voltou, foi a Simone mãe. Ela nasceu. Renasceu. Acordou. Sinto hoje que estive por um bom tempo anestesiada e sufocada pelas máscaras que vamos vestindo para sobreviver e atender às expectativas alheias e da sociedade. Mas desse parto ressurgiu a minha essência. Reencontrei a Simone sonhadora, mas com o pé no chão. Reencontrei a Simone forte, que eu tinha esquecido que um dia existiu. Sai do parto do meu filho mais inteira. Apesar de sentir que ia quebrar ao meio. Tanto física, como emocionalmente. Você acha que não vai aguentar, mas você encara e vai. Você acha que não vai dar conta. Mas vai mesmo assim, chega uma hora que não tem mais volta. Só resta encarar, aí você escolhe como encarar e seguir. Eu fui. Do meu jeito. Gritei, chorei, ri e fiquei em silêncio. Ouvindo meu barulho interno. Que não silenciou até hoje. Por um tempo fiquei meio fora do ar, uns seis meses, mais ou menos. Eu não acreditava no tamanho e na intensidade daquele evento. E assustada com a minha força. Eu não imaginava que eu era forte. Sempre ouvia das pessoas próximas que eu era forte, que eu já tinha passado poucas e boas, mas eu duvidava um pouco de mim. Depois do parto fiquei me achando fodona. Entendi finalmente o que era esse tal de empoderamento materno. Entendi porque todas que passaram por esse tipo de parto ficam querendo parir todo ano! Literalmente sobe pra cabeça essa loucura! Mas depois de um tempo desce. Mas desce até certo ponto. Você entende de uma vez por todas que você é capaz de tudo, se quiser, mas depois que o tempo passa, você tem que se lembrar disso. Diferente de apenas você achar que é capaz, você SABE que é. Você tem uma referencia, uma memória pra te dizer que sim, você é capaz mesmo! Não de uma forma alucinada, eu sei dos contornos do mundo. Mas não tenho medo. Acredito mais em mim. Sei de uma forma concreta. Não é mais uma suposição. Por outro lado, é desconfortante, porque não posso mais usar como desculpa que não vou conseguir, que é muito pra mim. Aí tenho que assumir que não fiz algo porque não quis, porque me acomodei e não porque não conseguiria…
Não posso mais culpar o destino, a vida, o outro. As minhas escolhas e as minhas não escolhas me pertencem. Tenho que arcar com elas. Estar ou não na zona de conforto, é uma escolha consciente minha. Dói? Dói. Da medo? Dá. Mas vou mesmo assim. Ou fico. O poder de decisão de ir ou ficar é meu. Fui!
Simone











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