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As travessias do luto

Atualizado: 7 de mar. de 2025



Tudo sobre ela.

A minha mãe, claro.

A ambiguidade da loucura e da lucidez.

As patologias, as comorbidades, a vida e obra.

Tudo misturado e confuso.

Na vida dela, na minha e nos meus sentimentos.

Uma vida que sempre foi marcada pela loucura e pela tentativa, por vezes, muitas delas, bem sucedidas tentativas de uma vida funcional.

E eu no meio disso tudo.

Na barriga e fora dela.

Perto e distante.

Dentro e fora.

Sempre ela e eu.

Duas vidas marcadas e entrelaçadas pela dor, loucura e amor.

Amor que cuidou e feriu na mesma proporção.

Amor pelo meu pai.

Dela por ele.

Meu por ele.

O grande elo.

E a grande falta.

Uma parceira que se quebrou com a sua morte e a fragmentou mais ainda.

Ela sentiu.

Eu senti.

Eu sinto todos os dias.

A falta dele.

A falta dela.

Da parte boa.

Da mãe boa.

O que restou dela? Se foi com ele.

Mas ainda vive nas minhas lembranças, assim como ele.

As mesmas lembranças que confortam, também machucam.

A certeza de ter sido amada.

A certeza de que só o amor não basta.

O amor permeado de tanta dor, fere.

O desamor, igualmente.

Entre amor e dor.

Entre loucura e lucidez.

Entre compaixão e insegurança.

Eu ainda estou aqui.

Sentindo.

Sentindo tudo.


(hoje faz 19 anos que meu pai se foi)

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Sou Simone Cortez, escritora, psicóloga clínica e intercultural, consultora materna e familiar.  

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