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Post amigo: A escola que sonhamos talvez seja uma desescola!

Atualizado: 4 de out. de 2024

Abaixo as palavras da querida amiga Mafoane. Companheira de maternagem e de quintal!

Aqui ela conta como está sendo a experiência dela (e nossa) no Quintal Umuarama, a creche parental que o Alexandre está frequentando.

A escola que sonhamos talvez seja uma desescola!

 Por Mafoane Odara Poli Santos[1]

Várias pessoas têm me estimulado a escrever sobre a primeira experiência de socialização do Mudrik. Então aí vai!

Mas antes de contar sobre ela, vale dizer como nos preparamos para recebê-la. Quando decidimos ser pai e mãe, escolhemos viver o máximo que essa experiência poderia proporcionar. Fiquei sete meses de licença maternidade, decidimos que o Marco assumiria os oito meses seguintes e que qualquer experiência de socialização viria depois dos primeiros 15 meses. Isso significou fazer ajustes financeiros, lidar com o julgamento das pessoas, mas essa foi nossa escolha desde a gravidez e talvez uma das mais bonitas e certeiras que já fizemos.

Deixamos de lado aquilo que a sociedade pensa, que o sistema impõe, aquilo que as pessoas acham, como nós vivemos a escola, como seria “certo ou errado” e decidimos pensar nas reais necessidades do Mudrik. Isso significou seguir o curso da natureza que, perfeita como é, nos ensina com a maternidade e a paternidade antes mesmo das crianças nascerem.

Não sabíamos o que nos aguardava, mas por sermos pais de uma criança negra que vive em uma sociedade que discrimina e pune crianças e jovens somente por terem uma tonalidade de pele negra, sentimos que qualquer que fosse a opção que escolhêssemos não o exporíamos à conceitos e valores com os quais não concordávamos, dos quais não estamos fugindo ou ignorando, apenas optando por vivê-los de outra forma.

A maldade humana e tudo aquilo que não queremos pra ele, como o racismo, vai sim chegar, a menos que nos isolemos da sociedade. Não queremos criar nosso filho em uma bolha, mas podemos escolher a forma e o tempo para apresentar as mazelas do mundo, o que não queremos é que a escola faça isso por nós, porque certamente o faria de forma bem mais dura e seca.

Engraçado como tudo conspira ao nosso favor quando jogamos nosso sonho para o universo! Ainda não tínhamos encontrado a escola dos nossos sonhos para o Mudrik e um dia vi um post de um grupo de mães que estava se organizando para criar um espaço onde fosse possível:

. Viver a maternidade e paternidade integralmente e dividir nossos medos e sonhos;

. Oferecer experiências interessantes de descobertas para os pequenos e pequenas que envolvessem a natureza. Pelo espaço estar próximo ao Parque Villa-Lobos, as crianças tem possibilidade de passar uma tarde por semana no parque;

. Decidir conjuntamente desde a alimentação até os processos pedagógicos e ferramentas de aprendizado. No quintal preferimos sempre alimentos orgânicos e sem açucar artificial; e,

. Ainda sonhar com a educação que queremos!

Era exatamente isso que procurávamos, pois todas as escolas alternativas com propostas pedagógicas interessantes e com possibilidades de convívio com a natureza custam entre R$ 1900,00 e R$3000,00/mês, o que está completamente fora de nossas condições financeiras.


Quintal Umuarama[2]

Junte 10 famílias, três educadorxs e duas “casas anfitriãs” bem acolhedoras transformadas em locais de aprendizagem preparados e coordenados pelos próprios pais, e temos o Quintal Umuarama!

Essa experiência começou no ano passado (eu não fazia parte ainda), quando os bebês tinham entre oito e dez meses. O Quintal, como chamamos, funcionava com uma educadora e um pai\mãe a cada dia para cuidar dos pequenos. Dava certo!

Mas nesse segundo ano, o grupo cresceu e, com os bebês agora mais velhos, surgiram novas demandas dos bebês e também dos pais e das mães, que agora queriam ter um tempinho livre sem perder a essência da maternidade e partenidade.

A casa linda e espaçosa tem um quintalzão, horta e sala de dança. São no máximo 8 crianças por dia; dois (2) educadorxs presentes todos os dias, cinco (5) vezes por semana das 13h30 às 17h30 e garantimos sempre lanche saudáveis com frutinhas e alimentos orgânicos.A divisão de todos os gastos é feita entre todas as famílias.

Às vezes, para explicar sobre essa experiência associo à uma “desescola” como descrito pela Ana Thomas:

“Desescolarização é o termo que tenho usado para expressar o desejo de tirar a escola de dentro de mim, a escolarização, que eu defino como massificação, colonização e que cria desejos artificiais em seus alunos. Seria mais preciso falar sobre mudança de paradigma de uma cultura e de um sistema. Hoje, nossa cultura vigente é a patriarcal, e nosso sistema é o capitalista. Ambos são processos anti-vida, desqualificadoras da potência de vida, pois nos coloca a serviço e uma cultura patológica. por isso é anti-vida, pois a vida é biológica. (…) No nosso modo de vida sob a cultura patriarcal e o sistema capitalista, a autopoiese é totalmente desinvestida e não desejada, e ao invés de confiarmos e potencializarmos nossas potências, somos induzidos a pensar, sentir e agir da maneira que siga alimentando nosso sistema e nossa cultura vigentes, criando um ciclo vicioso”.[3]

No Quintal, escolhemos educar crianças transformadoras, respeitando todo o seu potencial, olhando os processos de aprendizagem como parte do interesse pessoal de cada criança pelo mundo que as cerca e não de fora para dentro. Acreditamos que os bebês são muito ativos e têm o impulso de conhecer o mundo, por isso temos apostado cada vez mais na educação autônoma e de movimentos livres. Tudo isso ainda não conseguimos sentir que poderia acontecer dentro das quatro paredes de uma sala de aula, nossas crianças precisam de mais verdade e liberdade para ser por inteiro.

Para discutir tudo isso, a cada quinze dias nos encontramos para conversar sobre desenvolvimento dos bebês, crises e angústias dos pais/mães, alimentação, brincadeiras, desejos, sonhos. Nem sempre as conversas são fáceis, mas muito importantes e libertadoras!

Ainda estamos no começo dessa jornada e aprendendo sobre tudo isso, cada dia mais, sempre de peito aberto, rindo e chorando com nossas descobertas.

Um dia, quem sabe, nossa educação vai mudar e talvez a nossa escola dos sonhos não seja uma escola e sim uma desescola!

Família MMs (Mudrik, Mafoane e Marco) e o Quintal: caminhos do coração

“Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá

E é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar

É tão bonito quando a gente pisa firme nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos

É tão bonito quando a gente vai à vida nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração”

(Gonzaguinha)

Desde quando o Mudrik começou a frequentar o Quintal, em 05 de março, temos aprendido e refletido sobre processos de educação compartilhada todos os dias. Por exemplo:

Aprendizado 1 – A importância do tempo – nunca tivemos a preocupação de acelerar nenhuma fase (andar, falar etc), mas nas nossas saídas coletivas para o parque ou mesmo quando estamos juntos no Quintal, o Mudrik tem mostrado que o tempo de estar junto despretensiosamente é a melhor maneira de estimular as suas sinapses. Oferecer amor e o nosso tempo é muito mais valioso que inventar atividades, criando agendas e tentando descobrir quais são os novos produtos e aulas podemos criar pra eles.

Aprendizado 2 – A importância de dar tempo para o bebê ser bebê – Só vivemos essa experiência de ser bebê uma vez durante toda nossa vida, então por que não aproveitarmos o máximo que essa experiência pode oferecer? Tentamos garantir oportunidades e espaços adequados para o Mudrik explorar o mundo sem a ideia de antecipar algo que pode ser descoberto depois quando tiver muito mais sentido.

Aprendizado 3 – Aprendendo a linguagem dos bebês – É engraçado como o diálogo de olhares, os movimentos corporais e os sorrisos são capazes de mostrar o que as palavras não são. Quando aprendemos a fazer essa escuta, descobrimos a imensa capacidade que as crianças bem pequenas têm de admirar o mundo, de contemplar e entrar em acordo com o tempo, que não é tão horizontal – do antes, agora e depois. Ele é um tempo mais vertical, medido pela intensidade dos acontecimentos.

Aprendizado 4 – Lidando com a nossa necessidade de controlar a relação entre as crianças – como disse Gonzaginha: “somos as marcas e as lições diárias de tantas pessoas” e com essas marcas formamos nossas histórias, valores e princípios e nos guiamos por eles. Como não transmitir para nossos filhos nossos sonhos, ambições e frustrações? Como não entrar com julgamentos e históricos pessoais quando duas crianças brigam por um brinquedo, choram ou agem de forma que consideramos inadequada? Apoiar e não tomar partido de modo que elas encontrem sozinhas as soluções é complicado a princípio.


Foto: Carolina Meirelles

Foto: Carolina Meirelles


Bom, estamos só no começo da jornada, mas adorando cada momento e nova descoberta porque ter filhos é sonhar e imaginar todos os dias! Então quando me perguntam: “quando foi que você fez alguma coisa pela primeira vez?” a minha resposta é diferente todos os dias porque todos os dias faço algo pela primeira vez!


[1] Mãe do Mudrik Diop (1 ano e sete meses), esposa de Marco Antonio e empreendedora de sonhos.

[2] Significado da palavra Umuarama – LUGAR AREJADO


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Sou Simone Cortez, escritora, psicóloga clínica e intercultural, consultora materna e familiar.  

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